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2022: A retomada da esperança no setor cultural

Com a necessidade de isolamento social, o setor cultural foi um dos mais prejudicados pela pandemia da Covid-19. Período que impactou diretamente em projetos em andamento, a manutenção de profissionais e a renda das pessoas que dependem do setor.


Por Andre Samora e Odair Junior


Foto: Alex Régis


O setor cultural foi um dos mais prejudicados pela pandemia da Covid-19. Com a necessidade de isolamento social, eventos musicais, teatrais, museus e outros segmentos foram suspensos, o que impactou diretamente em projetos em andamento, a manutenção da profissão e a renda das pessoas que dependem do setor. Além da crise sanitária, a cultura no país já estava em queda de investimento do Governo Federal desde 2019, quando Jair Bolsonaro se tornou presidente e acabou com o Ministério da Cultura, virando uma secretaria no Ministério do Turismo. Em 2022, a cultura finalmente teve a possibilidade de voltar 100% aos eventos presenciais e também retornará a esperança de um futuro melhor para o setor.


No Brasil, segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), o setor de economia criativa corresponde a 2,64% do Produto Interno Bruto (PIB) e é responsável por 4,9 milhões de postos de trabalho. Com a pandemia, o setor cultural teve 11,2% de demissões em 2020, ou seja, mais de 600 mil trabalhadores perderam o emprego durante o início da pandemia. Na economia como um todo, a redução foi menor, de 8,7% no mesmo período, segundo o IBGE.


Abner Moabe é potiguar, formado em Jornalismo e especialista em cultura. Para ele, o setor de eventos foi o mais afetado pela pandemia. “Foi a primeira categoria a parar e a última que voltou. Porque para o setor de eventos é necessário a aglomeração de pessoas. Foi a primeira vez que o setor de eventos passou por crise na história, pois mesmo em momentos de crise econômica, o setor de eventos dificilmente é afetado, ou afetado de maneira violenta. Mesmo em crises econômicas, sempre as pessoas vão querer ir para as festas. O contexto pandêmico mostrou fragilidade do setor, que em poucos meses entrou em situação calamitosa e teve que demitir muita gente. A cadeia produtiva da produção dos eventos engloba muitas pessoas, como cantores, produtores e turma da 'graxa'".


Em 2021, o Governo do Estado do Rio Grande do Norte criou o Prêmio Potiguar de Música, realizado com a Lei Aldir Blanc, lei de incentivo à cultura. O festival promove a curadoria de músicas autorais de compositores e intérpretes potiguares para incentivo da cena musical do estado. Com essa ideia, o estudante de Medicina Pedro Silveira teve a oportunidade de iniciar a sua carreira durante a pandemia. Ele conquistou o terceiro lugar com a música “O Poema Mais Belo Que Há”, que está presente em seu EP chamado “Nu e Cru”, lançado em 2022.


Foto: Ian Rassari


"Tudo começou em um encontro dessas duas áreas, lá na faculdade tinha um projeto que era uma paródia do The Voice, o ‘MedVoice’. Foi nesse show de talentos que eu realmente assumi a minha identidade de artista e comecei a acreditar que esse caminho também poderia acontecer pra mim. Aquele sonho que estava adormecido de me dedicar a música, ao canto, foi despertado durante a faculdade e nos últimos anos tem sido isso, uma mão sustentando a outra. A Medicina me faz conseguir enxergar o ser humano na sua complexidade e a música da mesma forma me permite tocar o ser humano com o sentimento da emoção que uma canção pode trazer. É um equilíbrio nessa diversidade que eu me encontro. Trabalhar na área da saúde me permite ter contato com os pacientes em situações extremas de vulnerabilidade, de tristeza, de emoção, de felicidade, e tudo isso é uma inspiração para compor, tudo isso é uma inspiração para continuar acreditando no sonho e cantar, aproveitar a chance de está vivo e fazer o meu melhor para seguir os meus sonhos também”, contou Pedro sobre seu início na música.


Com a pandemia, foram dois anos difíceis para os artistas, que normalmente tem um processo de criação muito solitária, se tornou algo muito pior. A falta de estrutura e suporte para saber separar o trabalho dos outros aspectos da vida, pode se tornar algo muito perigoso. Pedro Silveira foi mais um caso de um cantor que pensou em desistir da carreira neste período.


“A pandemia afetou significativamente a minha saúde mental, e eu pensei em desistir não somente da carreira musical, como também da própria vida. Eu já vinha enfrentando alguns problemas de saúde mental, e na pandemia, tudo isso se intensificou de uma forma muito grande, maximizou todo o sofrimento que eu já estava passando, e a música foi o verdadeiro escape. Foi onde eu encontrei refúgio, alívio, esperança para continuar e continua sendo isso pra mim até os dias de hoje, esse abrigo nos momentos difíceis de dor e também aquele palco de celebração nos momentos de felicidade”, disse Pedro com voz embargada por ter passado por este período.


Prejudicados pela pandemia e sem a socialização, Abner Moabe fala que a retomada dos eventos foi de bastante procura por parte da população, começando no finalzinho de 2021 até os dias de hoje. Tudo isso ocasionado devido a demanda reprimida no tempo de lockdown.


Segundo Abner “Havia uma urgência psicológica das pessoas em quererem ir para os eventos e havia uma urgência de quem trabalha com isso, para que as pessoas fossem”. Esse, foi um dos principais motivos para que a retomada dos eventos fossem bem sucedidos. Consequência disso, foi o prolongamento dos calendários das festividades. Por exemplo, como a festa junina, que ficou dois anos sem acontecer e por isso, durou de junho até agosto.


Neste período, nosso entrevistado pontuou um acontecimento que ocorreu em 2021 que foi a execução da Lei Aldir Blanc, que foi aprovada ainda em 2020, uma lei emergencial de incentivo a cultura que possibilitou que em 2021 ocorresse um maior número de produções artísticas de modo mais facilitado. Por isso, foi um ano de bastante lançamentos e só no Rio Grande do Norte foram lançados mais de 70 EPs musicais no ano passado, tudo isso graças ao acesso a esse recurso que foi destinado através da Lei Aldir Blanc.


Pedro Silveira é mais um exemplo que aproveitou o investimento público para criar suas músicas. “Eu lancei o meu primeiro EP nesse ano de 2022, intitulado Nú e Cru! É um projeto bastante intimista que fala sobre as minhas experiências, sobre saúde mental, sobre recomeços, sobre histórias de amor. As músicas contam a minha experiência e superação de luta com os problemas de saúde mental que eu já tinha há anos, mas que a pandemia intensificou ainda mais. Então, o EP traz todo o cenário durante a pandemia da covid-19, todas as coisas que eu tive que enfrentar e a esperança de um novo futuro. Então, foi muito especial pra mim poder lançar esse projeto que é uma mistura de superação com esperança e otimismo pro futuro.”


Em 2018, ao ser eleito presidente da república, Jair Bolsonaro anunciou a extinção do Ministério da Cultura, sendo suas atribuições incorporadas ao Ministério do Turismo. Em 1º de janeiro, com a posse do Lula, presidente eleito, a cultura voltará a ter um ministério próprio e a chefe da pasta já foi escolhida, é a cantora Margareth Menezes.


Foto: Globo News


Uma fala marcante sobre este assunto foi da jornalista e apresentadora do Jornal das 10, na Globo News, Aline Midlej: “Margareth Menezes não assume a missão de refundar a cultura nacional como política pública apenas pela sua grandiosa trajetória musical, ela acumula muitas credenciais caras : mulher , negra, ativista, nordestina, referência no meio artístico e também no campo social. A futura Ministra da Cultura, reconhecida pela ONU, como uma das personalidades negras mais influentes do mundo, atua em diferentes palcos, como cantora e empreendedora social. Sempre foi um corpo político ao fazer questão de ser voz para os seus e para outros grupos sub-representados”. Tendo uma pasta exclusiva para a cultura e especialistas na área a partir de 2023, retornará a esperança de um futuro melhor para o setor.

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